COB utilizou grana dos atletas na campanha por Rio nos Jogos 2016

Carlos Arthur Nuzman aparece em troca de e-mails reproduzida na reportagem

E-mails sigilosos aos quais o Jogo Limpo teve acesso sugerem nova troca de favores envolvendo o Comitê Olímpico do Brasil (COB) e membro do Comitê Olímpico Internacional (COI) durante o processo que escolheu o Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

Nas trocas de mensagens eletrônicas, cartolas do alto escalão do COB afirma que o órgão se comprometeu com um dirigente do COI de que pagaria R$ 750 mil para organizar um evento de remo sem relação com a Olimpíada, com dinheiro da Lei Agnelo Piva, que deveria ser utilizado na preparação dos atletas olímpicos brasileiros.

Os e-mails são enviados em setembro de 2014 pelo o atual diretor-executivo do COB e então diretor esportivo do Comitê Rio 2016, Agberto Guimarães, e trocadas com Sérgio Lobo – secretário-geral recém-demitido do COB -, Sidney Lobo – que foi CEO do Comitê Rio 2016 -, e copiadas ao então presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman – na ocasião, presidente também do Comitê Rio 2016, o que favoreceu o trâmite.

ENTENDA O CASO

A ESPN teve acesso exclusivo à troca e e-mails, onde Agberto – que hoje tem salário anual de R$ 1.146.600 do COB – cita que a organização do Rio 2016 bancou os custos de um evento de remo, em acordo feito ainda durante a campanha da cidade carioca entre Nuzman e o presidente da FISA (Federação Internacional das Sociedades de Remo) e membro do COI, no caso o suíço Denis Oswald – que tinha poder de voto na escolha da cidade-sede dos Jogos.

“Rio 2016 organizara e pagara pelos custos do Mundial que foi acordado ainda durante a campanha Rio 2016 entre nosso presidente e o então presidente da FISA e membro do COI, Denis Oswald”, diz Agberto Guimarães no e-mail mencionado.

Ainda na troca de correspondências, Guimarães menciona que quem deveria bancar isso era a Confederação de Remo, não o Rio2016 e muito menos o COB, entidade que recebe dinheiro da Lei Agnelo Piva – que deveria ser investido nos atletas.

Inclusive, Agberto chega a dizer, em um e-mail reproduzido acima, como o fato de Nuzman presidir ambos os Comitês era crucial para o trâmite.

“O evento deveria ser organizado e pago 100% pela CBR. Nós estamos ajudando no processo para não respingar nada nas nossas duas organizações sob a liderança e presidência da mesma pessoa, Nuzman”, diz o ex-membro do Rio 2016 e hoje no COB.

Para completar, Agberto pede por um posicionamento do presidente de ambos os Comitês: “Nuzman, alguma coisa aqui não é do teu conhecimento ou concordância?”.

Veja abaixo, na íntegra, o e-mail de Agberto:

Ocorre que, na ocasião, o Rio 2016 não vivia situação financeira favorável, já que arcava com os custos dos Jogos, mas precisava pagar essa suposta dívida de campanha feita com o membro do COI.

No entanto, a alternativa foi se valer da premissa de que Nuzman era o presidente tanto do COB quanto do Comitê Rio 2016 para autorizar a operação.

Além do que, Agberto, na ocasião, era membro do Rio 2016, não do COB – só assumiu a entidade em outubro de 2016. E foi dele a iniciativa de pressionar o Comitê Olímpico para bancar o evento de remo, que não era responsabilidade da entidade e sim da organização dos Jogos.

Em um e-mail anterior, Sérgio Lobo confirma a operação.

“O COB, excepcionalmente, concordou em pagar 50% das despesas relativas ao evento do remo a ser realizado em Novembro deste ano. Sabemos todos, que a responsabilidade do evento como um todo é do Rio2016 mas, para colaborar e entendendo as dificuldades financeiras do Rio2016 o COB concordou em pagar 50% do custo total sabendo que a FI (Federação Internacional) irá pagar uma parcela. Até agora o COB vem arcando com 100% dos custos”, escreveu o então secretário-geral do Comitê Olímpico.

O dirigente menciona que o custo total do evento é de R$ 750 mil e pago inteiramente pelo IOB (órgão do próprio COB) de forma indireta e avisa que “o COB não tem condições de continuar arcando  sozinho com todos os custos, sem o apoio de 50% do Rio2016 conforme combinado”.

Marcus Vinicius Freire, à época diretor-executivo de esporte do COB, que até então não estava copiado nos e-mails, é colocado em determinado momento na conversa.

O dirigente fica contrariado com a postura de Agberto sobre o evento de remo, confirma a falta de recursos do COB e frisa que tal iniciativa teria impacto negativo no esporte nacional, às vésperas de uma Olimpíada.

E aponta: “Não vi a resposta do Nuzman (sobre o imbróglio), mas o COB NÃO TEM RECURSOS (assim mesmo, em caixa alta) previstos no seu orçamento para pagar estes eventos. Faltam 680 dias para os Jogos do Rio, temos uma meta arrojada e recursos em falta. E estes valores farão muita falta na preparação do Time Brasil”.

Freire, então, aguarda por um posicionamento de Nuzman.

Presidente dos dois órgãos, ele recebe os e-mails sem resposta, ao menos até onde a reportagem sem acesso – são cinco trocas de e-mails que duram 12 horas no dia 24 de novembro de 2014.

Agberto Guimarães aponta que o então presidente das duas empresas autorizou todo o procedimento. E cobra pela resposta do então cartola máximo do esporte olímpico brasileiro.

“O Nuzman autorizou e concordou com tudo. Nuzman tu és o presidente das duas organizações é comandante das duas operações. Acho melhor te manifestar para que o Marcus Vinicius entenda o que tu queres”, pede Agberto.

A reportagem não teve acesso à resposta de Nuzman e sequência dos e-mails, que indicam, além de lobby com um membro do COI e Federação Internacional, também a utilização de dinheiro da Lei Piva para efetuar toda a operação.

Por fim, destaca-se a presença de Nuzman, presidente de ambos os órgãos, e Agberto Guimarães, que nos e-mails pressiona para que o COB banque os custos do evento – apesar de ter o conhecimento de que isso impactaria na preparação dos atletas olímpicos do Brasil -, mas dois anos depois virou funcionário do próprio COB, sendo inclusive responsável pelos próprios atletas atualmente.

Vale lembrar que Nuzman é considerado o principal responsável pelo pagamento de propina a dois membros do COI na eleição do Rio de Janeiro como sede dos Jogos de 2016.

No começo de setembro, ele foi encaminhado à sede da Polícia Federal para prestar depoimento na operação batizada como Unfair Play, braço da Lava Jato que investiga a corrupção durante o governo estadual de Sérgio Cabral (2006 a 2014), mas permaneceu calado. Foi preso em outubro e liberado 15 dias depois.

OUTRO LADO

Procurado pela ESPN, o COB confirma o pagamento por um evento de remo às vésperas da Olimpíada.

As perguntas enviadas pela reportagem foram as seguintes:

ESPN – O comitê de candidatura do jogos Rio2016 assumiu um compromisso com um membro do COI que, caso ganhasse a eleição para sediar os Jogos, o Comitê Rio2016 iria realizar o Mundial de Remo e pagaria pelos custos do evento. Porém, Rio2016 não tinha dinheiro para realizar o Mundial. E o Agberto Guimarães, acordado com o Nuzman, pressionou para que o COB pagasse as custas do evento. E pagou. O COB confirma essa informação? Se sim, por que o COB pagou por um evento teste de remo? Isso não deveria ser custo da Rio2016 e da Confederação do esporte?

COB – Quanto à realização do Campeonato Mundial Juvenil de Remo, em agosto de 2015, o COB não custeou a sua realização. Para sua informação,em novembro de 2014 foi realizado um Congresso Internacional Técnico de Remo, organizado pelo Instituto Olímpico Brasileiro, dentro do escopo de suas atividades.

OUTRO LADO 2

Posteriormente, a ESPN enviou novo pedido de outro lado, inclusive com solicitação de posicionamento oficial do dirigente Agberto Guimarães – que não se manifestou. Segue o contato com o COB abaixo, na íntegra:

ESPN – Precisamos entender o que foi exatamente o “Congresso Técnico Internacional de Remo” que o IOB custeou, realizado em novembro de 2014, conforme vocês se referem na resposta. Quanto custou este evento e o que foi feito nele, especificamente? Cursos, provas de remo? 

COB – O Congresso Técnico Internacional de Remo (2014 FISA World Rowing Coaches Conference) é um evento do calendário da Federação Internacional de Remo e geralmente é realizado na cidade-sede dos Jogos Olímpicos. É um evento de capacitação técnica de treinadores da modalidade, de responsabilidade da federação local, no caso da Confederação Brasileira de Remo.

ESPN – Não sei se é o evento sobre o qual estamos tratando em nossa matéria. O evento que estamos tratando em reportagem é uma competição, que deveria ter sido custeada pelo Rio 2016, mas foi paga pelo COB, no valor de R$ 750 mil. Estamos falando do mesmo evento? Por que o COB teve de pagar um evento que era de responsabilidade da Rio 2016? O recurso para pagamento deste evento veio de qual origem Lei Piva, Convênio?

COB – Como explicado anteriormente, o Congresso Técnico Internacional de Remo é um evento do calendário da Federação Internacional de Remo e que geralmente é realizado na cidade-sede dos Jogos Olímpicos. É um evento de capacitação técnica de treinadores da modalidade, de responsabilidade da federação local, no caso da Confederação Brasileira de Remo (CBR). 

O Campeonato Mundial de Remo Junior, realizado em agosto de 2015, este sim uma competição esportiva, foi pago integralmente com recursos do Comitê Organizador Rio 2016. Diante da incapacidade financeira da CBR para realizar o Congresso Técnico Internacional de Remo, o mesmo foi organizado pelo Instituto Olímpico Brasileiro (IOB), braço de educação do COB que tem dentro do escopo de suas atividades a organização de eventos de capacitação para diferentes grupos, incluindo treinadores. 


O evento atendeu a cerca de 85 tre
inadores de 31 países, inclusive a 25 treinadores brasileiros, oriundos dos principais clubes do país, indicados pela CBR, entre eles o  treinador da Seleção Brasileira de Remo nos Jogos Rio 2016,  Alexandre Nunes Martins.

O evento teve custo final de R$ 746.507,79, e foi pago pelas seguintes rubricas:

– Comitê Organizador Rio 2016 – R$ 250.000,00

– Inscrições dos participantes – R$ 196.484,19
– IOB – R$ 300.023,60

Vale ressaltar que o IOB possui orçamento próprio, distinto das demais áreas do COB, e, portanto, não interfere na execução de projetos de outras áreas do COB.

ESPN – Em nossa matéria, vamos mostrar que o custeio deste evento (com recursos do COB) prejudicou a preparação de atletas em termos financeiros. Temos esta informação a partir de trocas de emails entre os responsáveis por este setor no COB e no Rio 2016. Para responder a este questionamento, precisamos de resposta específica do então diretor de Esportes do comitê organizador, Agberto Guimarães. Ele foi alertado sobre este fato, pelo que temos conhecimento. Como responsável pelos atletas, ele acha que fez tomou a decisão correta? 

 
COB –
 O Congresso Técnico Internacional de Remo foi custeado com base nos valores acima e não impactou no orçamento das demais áreas do COB. 

CONTATO JOGO LIMPO

Em setembro, a ESPN lançou um canal para fiscalizar e cobrar transparência no esporte. Queremos a contribuição dos leitores e telespectadores do canal para contar essas histórias. Se você tem alguma dica, de qualquer esporte, olímpico ou paralímpico, nos mande um e-mail para: jogolimpo@espn.com. A fonte será preservada.

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